Coisas de homem...
É dificil explicar porquê, mas alguns rituais masculinos sempre me fascinaram. Lembro-me de ficar muito quieta a ver o meu pai a fazer a barba. O vapor da água quente, a delicadeza do ensaboar a cara, a estranha doçura do escanhoar a face, deixavam-me completamente hipnotizada.
O mesmo se passava quando o meu avô fazia delicadamente o nó na gravata. "Vô ensina!" Pedi eu tantas vezes em biquinhos de pés. E um dia assim foi, com uma paciência que só um avô tem, lá fui iniciada na arte de entrelaçar aquela tira de delicado tecido de modo a fazer um nó perfeito.
Fazia desde então, questão de ser eu a fazer o nó na gravata ao meu avô. Nem sempre com bons resultados, já eu era consideravelmente mais baixa que ele, ficando a gravata na maioria das vezes curta demais.
Estive depois muitos anos sem o fazer, só voltando a fazer nós de gravata já em adulta. Isto porque, por incrível que pareça, apesar de ser um assunto tipicamente masculino, muitos homens não atinam com a arte de bem fazer um nó gravata sem destruir a mesma. Assim, volta na volta, lá ando eu em frente ao espelho a fazer nós simples, duplos... Faço-o sempre brincando com a incapacidade masculina de fazer uma coisa tão simples, tornando esses minutos numa paródia.
Fazer o nó da gravata a quem se ama, é no entanto um momento quase que mágico. A cumplicidade e o carinho de que se reveste o simples acto de enlaçar e ajeitar uma gravata são de tal ordem, que exercem em mim o mesmo doce fascínio que em criança sentia ao ver o meu avô, frente ao espelho a tratar da sua gravata.


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