Traquinices matinais...

Hoje acordei ao som dos risinhos e xius dos meus pequenos primos.
A Rita assim que entrou correu para as escadas do meu quarto, e rápidamente subiu mesmo tendo mãe a ralhar por me ir acordar tão cedo. O Diogo, na sua paxorrenta maneira de estar veio também ao meu encontro, até porque a irmã já se tinha encarregado de me acordar.
Ao som de um "Su acóda, anda brincá" lá abri os olhos, esboçando um sorriso para aquela pirralha eléctrica.
Depressa se fez horas de me arranjar e sair para o trabalho. A Rita, essa, na sua inocência pedia-me chorosa que ficasse. Tentando confortá-la lá lhe fui dizendo que o mano brincaria com ela, e a levaria ao jardim para brincarem mais à vontade. Mas nada a convencia e o choro foi-se acentuando.
Resolvi sentar-me nas escadas com a Rita a meu lado. Iamos ter uma conversa de meninas, disse-lhe. Como não entendia o porquê de tanto choro, lá lhe perguntei porque não queria ela brincar com o mano. Respondeu-me timidamente que ele só jogava à bola e não a deixava jogar com ele por ser pequenina.
Foi como se recuasse uma vintena de anos. Também eu passei pelo mesmo numa rua onde só existiam duas meninas, e onde os meninos para além de serem mais velhos, também não nos deixavam participar nas brincadeiras, porque jogar à bola não era coisa para meninas, "as meninas brincam com bonecas" diziam eles.
Então ignorando de todo a idade que tenho resolvi ser novamente a traquinas que sempre fui em criança, que com ar doce e sorriso meigo manipulava tudo e todos a meu belo prazer. E assim comecei a contar que quando era pequenina também não me deixavam jogar à bola, mas que um dia tinha achado a solução. Sempre que a bola saia de jogo e por acaso do destino me passava pelos pés.... desaparecia!
Satisfeita com a descoberta de uma traquinice nova lá foi a Rita de nariz empinado, muito senhora de si, como que dizendo "agora é que vais ver como é, a prima ensinou-me a estragar-te a brincadeira, e assim tens de brincar comigo!".
Não menos satisfeita sai eu de casa, rindo do sermão da minha mãe, acusando-me de ser igual à canalha, tentando envergonhar-me por ser tão pirralha quanto os meus priminhos.

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