...

- Peço desculpa. A senhora vai para o Metro?
- Vou sim.
- Importa-se de me encaminhar até lá?
- Claro que não!


Há pequenos instantes mundanos que nos fazem cair numa profunda tristeza...
O pequeno diálogo tornou-se rotina matinal. Todos os dias a mesma senhora me solicita o mesmo favor. A cegueira impede-a de se deslocar livremente sem a ajuda de terceiros.
Todos os dias sou eu quem lhe responde, pois os demais ignoram o apelo numa arrogância desdenhosa. A mim toca-me profundamente, já que vejo nesta senhora o futuro do meu próprio pai.
Não consigo imaginar como será a vida destas pessoas. Nunca me vi privada da minha visão até hoje. Mas tenho noção do que é vida de alguém que por macabra sina se depara com a perda progressiva desta.
Faz algum tempo que cá em casa se luta contra a progressiva cegueira do meu pai. Uma luta inglória diga-se, já que dinheiro algum gasto até hoje em tratamentos revolucionários trouxe melhorias significativas, ou mesmo a estagnação do processo em si.
A dor maior é assistir à queda emocional de um homem, pleno de vida, cujos os sonhos de uma velhice, temperada de letras e papel, ao som do clique do obturador da sua Nikon, foram destruídos por uma macabra sina de perder o mais poético dos sentidos - a Visão.
Enquanto gentilmente encaminho aquela senhora, com indicações precisas dos obstáculos que vamos encontrando, não consigo deixar de pensar que esta dependência de outrém, vai destruir por completo o homem que me deu vida.

E é esta realidade que me corroi... porque não sei lidar com ela.

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