Em Novembro, faz dois anos que faleceu um dos meus tios mais queridos .

À data da sua morte, o pequeno Diogo, seu neto, deveria ter cerca de um ano e meio. O certo é que ainda hoje, reconhece o avô em fotografias, surpreendendo-nos a todos. Ao vê-las, pergunta-nos sempre pelo avô, como se este estivesse apenas ausente. A sua noção de tempo difere da nossa por motivos óbvios. Tudo é medido à razão do seu pequeno tamanho.

Na semana passada, apesar da fotografia ser bastante antiga, uma vez mais reconheceu o avô, e uma vez mais perguntou onde estava. Nestas alturas a tendência das pessoas é responder que está no céu. Foi o que fez a bisavó Laura - "O avô não está cá querido, está no céu. Tu não podes ver o avô, mas ele está lá em cima a olhar por ti".

Quando os miúdos são de pacato feitio, ficam-se mudos e quedos com semelhante explicação. Mas se forem espevitados (como é o caso), a resposta, que para uns é suficiente, mesmo que não a tenham entendido na totalidade e as dúvidas persistam; torna-se motivo para um longo e não raras vezes, complicado questionário. Não é fácil explicar um conceito que nos é tão doloroso, a uma criança de três/quatro anos.

Passado algum tempo, não satisfeito com a situação, até porque é notório que tem saudades do avô, o Diogo resolveu apresentar à bisavó uma solução para a questão do avô estar "lá em cima" e dele não o poder ver - "Vó Laura, se a gente atirar uma corda, o vô Licas podia descer!"

O ar sério como que foi apresentada a solução, deixou sem palavras quem o rodeava. O que dizer a uma criança numa situação destas, sem ter de lhe apresentar a realidade amarga e dolorosa de se perder quem mais se ama...


Foto de Ricardo Tavares

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