Sortudo...

Trocava tudo por uma mão cheia de amoras!!
Este ano por não ter tido férias no verão, vi-me privada deste manjar dos deuses...
Quando mais velha fico maior é a necessidade de comungar com a natureza... maior é o meu enlace com saberes e sabores quase esquecidos no meio urbano onde vivo.
Quantas crianças nos dias de hoje conhecem o sabor dos morangos bravos; das amoras e de tantas outras delícias campestres?
Ainda me lembro da cara horrorizada de uma colega quando me viu deliciada a apanhar umas 'coisinhas vermelhas' entre arbustos e flores na Gulbenkian... lá tive de explicar que aquilo não matava ninguem, apenas eram morangos bravos. Mas mesmo assim ela achou que eu estaria a comer qualquer coisa venenosa, tornando aquela maravilhosa tarde num autentico filme de terror.
Acho que teria um ataque de esterismo se me visse entretida a sugar o nectar das flores da trepadeira que cobre os muros da Casa do Engenheiro. Outro manjar dos deuses...
Faz-me alguma impressão as mariquices alimentares dos dias de hoje... será que as pessoas não têm noção de que o homem já comeu de tudo? Ou será que as pessoas pensam que séculos atrás havia bifes com batatas fritas à disposição como nos dias de hoje?
Eu felizmente tive a sorte de crescer conhecendo os dois lados da moeda, de viver nos dois polos; no campo e na cidade. Prefiro o primeiro ao segundo sem qualquer sombra de dúvida. Facilmente abdicava de todos os mimos urbanos por uma vida sossegada junto ao fogão de lenha, ou no alpendre olhando a serra.
Percebo, cada vez mais, o porquê desta minha alma Wicca, só ela justifica este meu apego ao mundo natural... às aves; às flores e arvores; à raposa e ao coelho bravo; à urze e à cidreira... aos rios e riachos... à imponente serraria.
Nasci na capital, mas as minhas raizes, bem como a minha alma, são beirãs... sinto falta do silêncio dos finais de tarde, das manhãs frias perfumadas de pinho. Pequenas maravilhas que o mundo ruidoso e poluto da grande cidade abafou para todo o sempre...

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